Segunda Cápsula Informativa – Research on Research Lab

Devo deixar minhas perguntas como obrigatórias na Internet

Propor uma opção 'não sei' nas alternativas de resposta de uma pesquisa é uma decisão importante e no entanto ainda não se debateu o suficiente.

Em primeiro lugar, deve-se ter em conta que há perguntas onde os respondentes realmente podem não saber o que responder. Se a opção 'não sei' não está proposta entre as alternativas de resposta e não se permite pular a pergunta, ao respondente só restam duas opções:

  1. -ou abandonar a pesquisa
  2. -ou responder qualquer coisa aleatoriamente

Obviamente, nenhuma dessas opções é desejável para um pesquisador. É por isso que é preferível ou propor uma opção 'não sei' ou permitir que os respondentes pulem a pergunta sem responder.

Vários são os fatores a se ter em conta. Por um lado, se se permite aos respondentes pular perguntas sem responder, teremos mais 'valores perdidos': alguns deles corresponderão a pessoas que realmente não sabiam o que responder, mas outras corresponderão a pessoas que não tiveram que fazer esforço para pensar na pergunta e determinar qual é sua posição a respeito. Igualmente, se uma categoria 'não sabe' é proposta explicitamente, não só será escolhida por quem não sabe o que responder, como também por quem minimiza seu esforço em responder a pesquisa (o que se refere às vezes como 'satisficing', ver por exemplo Krosnick, 1991). Permitir pular perguntas e propor o 'não sabe' também tem seus inconvenientes.

Nas pesquisas face-to-face ou por telefone, a estratégia mais comum para solucionar este dilema é não propor explicitamente a categoria 'não sabe' nas respostas. Mesmo assim, se durante a administração do questionário um respondente diz espontaneamente que não sabe o que responder, codifica-se sua resposta como tal. Desta forma, permite-se ao respondente pular a pergunta seguinte, mas assegurando sempre que o entrevistador tenha insistido em obter uma resposta antes.

Nas pesquisas via Internet, não existe a figura do entrevistador que possa insistir na importância de responder ou que possa codificar uma resposta que não aparece na tela, assim o mais comum (ao menos no início das pesquisas online) seria forçar as respostas e não propor a opção 'não sei'. Como explicado anteriormente, isso gera problemas, mas é certamente atraente para os usuários dos dados (os pesquisadores) não terem que preocupar-se com o que fazer com os valores perdidos e 'não sei', já que não existem. Couper (2008) criticava esta prática: está claro que essa estratégia evita valores perdidos, mas também perdem-se respondentes e que se muitos respondentes abandonarem a pesquisa, podemos ter problema de representatividade. Adicionalmente aparece um problema de qualidade. Se os respondentes realmente não sabem o que responder, mas dão uma resposta de qualquer forma, essa resposta não só não acrescenta informação como também desvirtua a informação que temos. Em resposta a esse dilema, Couper (2008) recomenda permitir que os respondentes possam pular perguntas.

No entanto, esta solução não evita o risco de ter-se muito mais valores perdidos que os correspondentes a pessoas que realmente não sabem o que responder ou não querem responder (aumenta o 'satisficing'). Para tentar reduzir esse risco, de Leeuw, Boevé e Hox (2013) propõem usar a interatividade da Internet para simular uma relação entre o respondente e o computador mais similar a que existe com um entrevistador ao vivo: propõem permitir pular uma resposta e explicitamente especificar uma categoria 'não sei', mas de forma que quando um respondente tente qualquer destas opções, lhe apareça uma mensagem certificando que sua resposta foi registrada e perguntando ao mesmo tempo se realmente querem avançar sem responder ou respondendo 'não sei', insistindo na importância que sua resposta tem para a pesquisa. Desta forma, pular uma pergunta ou escolher 'não sei' já não é uma opção cômoda, à medida em que o respondente tem que responder também à mensagem de confirmação. Um respondente que queira minimizar seu esforço em responder a pesquisa verá que dessa maneira sua estratégia é desmotivada, podendo concluir que apenas os que realmente não sabem ou não querem responder selecionarão as opções correspondentes.

Usando os dados do LISS panel (painel online na Holanda com mostra probabilística), Leeuw, Boevé e Hox (2013) encontraram que a porcentagem de respondentes que escolhem a opção 'não sabe' diminui significativamente quando usa-se uma mensagem de confirmação (por exemplo, de 24% a 8% quando o 'não sei' é proposto na forma de botão), sugerindo que sem a mensagem de confirmação, há um nível muito mais alto de 'satisficing'. Também encontraram que se propõe-se um 'não sei', a confiabilidade é mais baixa, mas se usamos uma mensagem de confirmação, a confiabilidade sobe significativamente.

A partir destas análises, concluem que é melhor permitir pular uma pergunta, mas não propor explicitamente o 'não sabe', a menos que seja realmente uma pergunta em que pode-se esperar que os respondentes não saibam o que responder. Nos casos em que é realmente necessário propor uma alternativa 'não sei', recomendam combinar esta com uma mensagem de confirmação. Assim mesmo, mostrar uma mensagem de confirmação para as perguntas que tentam ser puladas parece uma boa opção.

Referências bibliográficas:
  1. -De Leeuw, E.D., Boevee, A. and J. Hox (2013). 'Does one really know?: Avoiding noninformative answers in a reliable way'. Presentation at the General Online Conference, 2013 (Mannheim).
  2. -Krosnick, J.A. (1991). Response Strategies for Coping with the Cognitive Demands of Attitude Measures in Surveys. Applied Cognitive Psychology 5:213-36.

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